A Pecuária Moderna quer acabar com o boi sanfona


* O gado da foto é da raça Purunã. A raça foi desenvolvida pelo IAPAR e nasceu em Ponta Grossa em 1980 e hoje com 37 anos está em diversos lugares do Brasil. O Purunã é formada por quatro raças: Charolês, Caracu, Aberdeen Angus e Canchin. Traz em seu sangue rusticidade e precocidade e pode ser usado em cruzamentos industriais.

O programa é uma parceria entre entidades do setor agropecuário SENAR, FAEP, Sindicatos Rurais e o Governo do Paraná, através do Programa de Modernização da Pecuária de Corte do Paraná. O programa traz um conjunto de medidas que pretende fomentar a pecuária de corte com técnicas de manejo para tornar o estado autossuficiente na produção de bovinos de corte. O plano terá duração de 10 anos e, para que não se perca a proposta pelo caminho, foram criados um Comitê Estadual e alguns Comitês Regionais. O Comitê Regional dos Campos Gerais é composto por 18 membros de diversas entidades. A proposta do comitê local é atender a região propondo uma pecuária rentável, produtiva e que melhore a renda do produtor rural. Quem está à frente do Comitê dos Campos Gerais é o veterinário e empresário Damasceno Araújo Ribas. Segundo ele, a proposta do governo é interessante e busca melhorar a pecuária paranaense. “Mercado existe no Paraná, tanto que temos um déficit, somos importadores de carne “in natura” frigorificada e de animais vivos para abate. Sabemos que temos potencial para produzir a carne que consumimos e, depois de realizada a lição de casa, podemos pensar até em comércio exterior”, afirma. Para auxiliar os produtores a atender essa demanda está sendo ofertado um curso com uma carga-horária de 160 horas, sendo dividido em 10 módulos com aulas teóricas e práticas, com temas ligados à produção pecuária, como gestão, manejo, reprodução, alimentação, implantação e manejo de pastagens, entre outros. Este treinamento é destinado para os profissionais de agronomia, zootecnia e veterinários. Os interessados devem procurar o Sindicato Rural de Ponta Grossa. Damasceno salienta que a proposta do comitê não é criar uma richa ou disputa com a produção de grãos, é um desafio de mostrar que a pecuária, quando bem manejada, pode ser mais uma renda dentro das propriedades e para isso, devemos tornar o barranco produtivo. “O importante é que o produtor se conscientize que não estamos pensando em competir com rentabilidade da soja, milho, entre outros, mas estamos pensando em acolher produtores que tenham intenção de trabalhar sério e fortalecê-los, oferecendo orientações técnicas para que ele tenha rentabilidade semelhante, igual ou até mesmo superior à da produção de grãos, nos talhões de sua propriedade onde não vai a agricultura.



Planilha de custos deve

estar na ponta do lápis


O pecuarista precisa de dados e deve saber usá-los. Precisa também aproveitar áreas de “barrancos” com tecnologia e deixá-las produtivas.

Fator importante, segundo Damasceno, é que o pecuarista deve ter uma planilha e usá-la para acompanhar todo o processo para que saiba qual forrageira produz melhor, qual melhor tipo de adubo, quantos quilos de carne ele produz por hectare, entre outros fatores. "O pecuarista precisa ter dados em mãos, como o agricultor, e saber usá-los. Também não queremos recuperar as áreas que no passado foram da pecuária e hoje são de grãos. A ideia é usar o que já tem, para produzir mais usando tecnologias, ou seja, deixar o “barranco” produtivo. A pecuária será rentável usando as áreas ribeirinhas da propriedade, onde os grãos não são produtivos”, orienta o coordenador. Um fator importante em relação à qualidade da carne, segundo Damasceno, é que o mercado não deseja “boi sanfona”, ou seja, aquele que engorda e emagrece. “O mercado agora deseja qualidade e um manejo adequado fará com que o animal tenha uma capa de gordura correta ajudando na qualidade da carne. Portanto, são diversos fatores que o comitê, ao longo do projeto, pretende trabalhar com os produtores para obtermos carne rentável e de qualidade”, afirma.

Por isso é primordial, na visão de Damasceno, o seguinte ditado: “Quem não sabe quanto gasta, não sabe quanto ganha.” Ele propõe um exercício sobre a produtividade. “Os custos são variáveis de uma propriedade para outra, mas vamos fazer um exercício sobre produtividade de bovinos de corte na região dos Campos Gerais”, convida o coordenador. Segundo ele, a conta é relativamente fácil de ser feita. “Uma pastagem de boa qualidade, pastejada por bovinos de boa qualificação genética, pode oferecer ganhos de peso acima de um 1kg por dia por animal. Porém, vamos tomar como exemplo uma média de 750g dia, repito 'para uma pastagem boa e bem manejada e um animal de cruzamento industrial, ou seja, que tenha boa genética”, explica Ribas. Segundo ele, em 365 dias no ano teremos 273,75 kg de carne por animal ano. Ribas toma por base uma lotação de 4,66 unidades de animal por cabeça/hectare ano. “Essa lotação é perfeitamente possível de ser alcançada, temos exemplos de propriedades trabalhando, aqui na região, com índices mais elevados. Se multiplicarmos 273,75kg x 4,66, teremos um rendimento bruto de 1.275,67kg, por hectare ano, ou seja, 85,04@ por hectare ano. Se dividirmos as 85,04 por 2, teremos 50% de rendimento que vai até dar um pouco mais no frigorífico, mas vamos deixar isso como reserva técnica. Com os 50% de rendimento teremos uma produção de 42,52@ por hectare ano. Se formos calcular a arroba no valor de R$ 140,00 que é um preço razoável e multiplicar pelas 42,52@, teremos um faturamento bruto de R$ 5.952,80. Esses valores são de uma conta básica para pecuária de corte produzindo carne”, descreve. Ele afirma que esses números, de uma forma grosseira, mostram que a pecuária é viável no barranco se comparado com a soja. “Hoje um agricultor que tenha uma produtividade média de 140 sacas por hectare a um preço de R$ 75,00 a saca, terá um faturamento bruto de R$ 4.338,75. Se formos deduzir os custos de uma e outra atividade, podemos perceber que a pecuária é viável, ou na pior das hipóteses, empatar com a área nobre da agricultura”, afirma Damasceno. Ele destaca que a pecuária não precisa de área nobre, mas a agricultura precisa para produzir esses valores. “A pecuária não necessita de área nobre, só desejamos mostrar ao produtor que através da capacitação e tecnologia podemos deixar o “barranco” produtivo e rentável”, salienta.


Pastagem de qualidade é fundamental

para uma ótima conversão em carne

O curso irá mostrar a correta formação de pastagem tanto em áreas nobres como em área declivosas, pois um pilar da criação é alimentação.

Uma das muitas técnicas que serão apresentadas no curso, por exemplo, é escolher bem a forrageira oferecida aos animais. Que, mesmo em espaço menor, podem ter um ganho de peso maior, pois os nutrientes desta planta favorecem o crescimento e a engorda. Quem explica isso é o agrônomo e integrante do Comitê da Pecuária Moderna dos Campos Gerais, Carlos Roberto Justus Madureira. Ele explica que o curso irá treinar técnicos, agrônomos, veterinários e zootecnistas para ressaltar que a alimentação e o manejo correto na pecuária são indispensáveis para se ter um bom resultado. “Temos como exemplo a Fazenda Modelo do Iapar, onde os animais são criados em pastagens abundantes, bem nutridas e manejadas adequadamente. Além disso, eles possuem um gado sadio e com uma excelente genética. Portanto, são vários fatores que influenciam no desempenho rentável de uma produção pecuária”, explica Madureira. O agrônomo destaca que um dos pilares da criação é a alimentação. Quando se fala em alimentação, o básico é o pasto. Porém, conforme a disponibilidade administrativa, financeira, estrutura e instalações disponíveis são viáveis a utilização de alternativas como silagens, fenos, pastagens específicas para a época do ano quando a condição climática permitir. Portanto, o curso deve focar prioritariamente como se forma a pastagem, sua implantação, correção e fertilização do solo e manejo de pastoreio adequado, entre outros detalhes importantes. “Essa formação técnica deverá servir tanto para uma área de agricultura, quando o pasto também é uma opção à rotação de cultura, ou mesmo na utilização de área que não é apta para agricultura. Pois as pastagens podem ser melhoradas mesmo em áreas declivosas. Sendo assim, o curso deve mostrar o aproveitamento dessas áreas e torná-las mais uma fonte de renda para o produtor”, explica Madureira. Outro destaque sobre o pasto é que o início de pastejo tenha uma altura ideal, para que o animal aproveite bem os nutrientes oferecidos pela planta. “Um pasto com altura correta é de cerca de 30 a 40 cm, para iniciar o manejo e assim o pastoreio e conversão de peso será melhor”, descreve. O agrônomo salienta que o gado bem alimentado é o que irá produzir mais, pois irá desmamar mais cedo e irá engordar o lote com menos prazo. “Isso é tudo o que os pecuaristas desejam, ou seja, rentabilidade na propriedade. Portanto, o produtor precisa entender e ressaltar que o investimento na pastagem, genética e manejo são fundamentais. Assim, o pecuarista deve trabalhar como o agricultor, que trata bem a sua plantação de soja, milho, e desta forma consegue bons resultados”, enfatiza Madureira.


Confinamento é mais uma

opção para criar gado

O confinamento é mais uma opção para terminação de animais, tanto na recria quanto na engorda. Porém, neste tipo de criação a alimentação e o manejo precisam ser levados à risca, para que o peso na balança justifique os custos de produção. “Em nossa região temos vários confinamentos, pois temos facilidade de produção de silagem, milho, farelo de soja, entre outros e também outro item é a facilidade de conservação desses alimentos”, explica Damasceno. Ele destaca que o que importa no confinamento são duas coisas básicas para o sucesso. “O sucesso está condicionado à qualidade da alimentação e qualidade genética do gado. Esses dois itens são imprescindíveis no sucesso do confinamento. O pecuarista não é obrigado a fechar o animal, porém depois de fechado deve dar-lhe condições de bem estar e alimentação. Na alimentação de confinamento deve ser observada uma dieta rica em nutrientes e bem balanceada”, salienta. O coordenador enumera os custos que devem ficar sempre na ponta do lápis para saber como está o andamento de todo o processo. “Tem o custo das instalações, exigência do gado para que ele responda à alimentação que será fornecida. Temos também o custo de mão de obra para manutenção, limpeza da instalação e o custo da alimentação que pode ser feita na nossa região com silagem de milho, sorgo, pré-secado de inverno, aveia, azevém, entre outros”, discrimina Ribas. Ele também fala que o pecuarista tem que ter em mente que o gado precisa de dois padrões de alimentação. "O volumoso que são as silagens, feno, pré-secado e parte proteica como o farelo de soja, que é uma fonte extraordinária de proteína que dá energia e vigor ao animal. Porém, o custo para comprar farelo de soja varia, por ser um produto de exportação, sua cotação varia muito de acordo com o câmbio. Portanto, tudo isso deve ser colocado na ponta do lápis para ter números corretos, custos x benefícios”, pontua Damasceno. Quanto às instalações, ele explica que existem diversas, entre elas as de céu aberto, coletivos, baias fechadas. Além disso, o criador deve aproveitar os dejetos para usar na adubação da agricultura ou pasto. Outra dica é observar todos os quesitos em relação à legislação ambiental, licença com o IAP e também em relação ao bem estar animal.


Veja mais detalhes no video sobre a reportagem de capa da MR 28

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