Diante da pandemia, instrutores do SENAR-PR desenvolvem habilidades além da sala de aula


Em tempos de pandemia, milhares de brasileiros têm encarado um novo desafio: a adaptação às mudanças e garantir a renda em meio à crise. Esse cenário se tornou ainda mais pertinente para os profissionais que atuam diretamente com o público. O mundo mostrou que, mais que uma alternativa de trabalho, um planejamento é fundamental para lidar com situações adversas.

Neste contexto, os quase 400 instrutores do SENAR-PR também tiveram que se reinventar. Com os cursos presenciais suspensos desde o final de março, atendendo às orientações dos órgãos de saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, os profissionais precisaram diversificar as atividades.

Instrutor do SENAR-PR desde 2009, Luiz Augusto Burei, do município de Cantagalo, na região Central do Paraná, passou a investir mais tempo na própria empresa de consultoria, diagnósticos e planejamento estratégico para empresas do agronegócio. Segundo Burei, o incentivo partiu do SENAR-PR, enquanto atuou como instrutor do Programa Empreendedor Rural (PER).

“Em 2019, participei da atualização do PER, que me tirou da zona de conforto e fez com que eu olhasse de forma diferente para a minha própria vida. Percebi que a maior parte da minha agenda estava voltada apenas para o SENAR-PR. A partir disso, busquei uma formação de palestrante e estruturei minha carreira fora”, comenta.

Com a suspensão dos cursos da entidade, Burei desenvolveu novos produtos e serviços para a sua empresa. Além de palestras, o portofólio passou a oferecer atendimentos em coaching & mentoring, consultorias in company, treinamentos e cursos à distância. Atualmente, a Agroburei atende empresas de todo o território nacional e, apesar do foco no agronegócio, também tem clientes no meio urbano.

O próximo objetivo de Burei é realizar atendimentos para empresas internacionais. “A capacidade do empreendedor de realizar as ações normalmente precisa de uma motivação. Isso também foi uma lição do PER. Estamos passando por um momento difícil, mas que permite infinitas possibilidades, desde que eu consiga olhar para isso e atender à necessidade das pessoas”, destaca Burei.

Adaptação às oportunidades

Na região Norte do Paraná, alguns instrutores do SENAR-PR apostaram na diversificação de atividades para garantir a segurança financeira e acumular experiência profissional. Em Arapongas, o agrônomo Alef Graneiro atuava como mobilizador do sindicato rural do município, quando, há três anos, surgiu a oportunidade de investir em um negócio de assistência técnica em parceria com outros dois instrutores do SENAR-PR.

Com a empresa, Graneiro presta diversos serviços, como análise de Proagro, projeto de custeio em parceria com bancos, avaliação de solos e imóveis, topografia e georreferenciamento. A carteira de clientes é dividida entre os sócios e estruturada de acordo com as regiões de atendimento. Atualmente, a empresa possui 38 clientes fixos, além de atendimentos pontuais.

“O sindicato rural foi muito importante no início deste trabalho, quando eu era mobilizador, pois tínhamos o contato com os produtores e, assim, identificamos os problemas e as demandas”, conta o agrônomo, habilitado como instrutor do SENAR-PR neste ano. “Não podemos ficar 100% dependentes de uma única atividade. Por isso, busco alternativas. Tem muita brecha para os agrônomos se reinventarem”, complementa.

Recentemente, Graneiro também começou a prestar serviços individuais para empresas de jardinagem, devido à exigência de um agrônomo responsável. “É um outro caminho no qual resolvi apostar. O Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] exige cadastro no Renasem [Registro Nacional de Sementes e Mudas] e eu auxilio. Tenho vínculo mensal com essas empresas. É um nicho muito interessante”, constata.

Próximo ao município de Arapongas, em Londrina, a consultora e psicóloga Fumika Watanabe é especialista em coaching empresarial há 15 anos e atuou nas primeiras capacitações do PER. O contato com o SENAR-PR se deu por meio da parceria com o Sebrae-PR, onde Fumika também realiza serviços de consultoria e instrutoria. Há quatro anos, a profissional foi habilitada para o Programa Herdeiros do Campo e, em 2020, para o Programa Mulher Atual.

Com a suspensão dos programas e orientações de distanciamento social, Fumika redirecionou seu trabalho para o atendimento remoto. “Eu tive que me adaptar a esse formato à distância. Agora estou fazendo consultoria online e mantendo outros projetos online também. A experiência nesse formato tem sido bastante produtiva”, afirma. “A suspensão dos cursos me pegou de surpresa, mas as outras atividades dão uma certa segurança”, conclui Fumika.

Ainda no Norte do Estado, no município de Bandeirantes, o empresário e instrutor do SENAR-PR Guilherme Tavares Vasconcelos investe na carreira de empreendedor desde os 20 anos, quando abriu a agência de publicidade Sempre Inove. “Eu sempre tive esse espírito de empreender, nunca pensei em trabalhar de outro jeito. Aos 16 anos, eu comecei a dar aulas de informática. Na faculdade, abri minha primeira empresa, que tenho até hoje. Cerca de três anos depois, montei uma empresa especializada em formaturas e, uns dois anos depois, abri uma casa nortuna. Quando entrei no SENAR-PR, em 2015, tocava três negócios simultaneamente”, assinala.

Enquanto instrutor do SENAR-PR, Tavares ministra cursos na área de gestão, como fluxo de caixa, inclusão digital e gestão rural, além de treinamentos do plano de capacitação voltado para as Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadecs), além dos treinamentos na área de gamificação, parte do Programa de Sustentabilidade Sindical (PSS) do Sistema FAEP/SENAR-PR.

Com o acúmulo de tarefas, Tavares e o sócio decidiram fechar o bar em 2019. Atualmente, o empresário mantém a agência de publicidade e a empresa de formaturas, porém, a agenda de trabalho mudou. “Eu entrei em outra fase da vida, então foi uma decisão diminuir o ritmo”, comenta.

Em razão da pandemia e da suspensão de eventos, o empresário conta que os negócios sofreram impacto, principalmente no ramo de formaturas. Mas, devido ao planejamento, foi possível se adaptar à realidade temporária sem prejuízos. “A parte financeira está estável porque tenho reserva e planejamento. É lógico que não entra dinheiro como antes, mas não passei por dificuldades, graças a outras fontes de renda”, ressalta o empresário.

Instrutores do SENAR-PR apostam em reinvenção

Com a suspensão dos eventos presenciais, muitos instrutores têm buscado soluções em habilidades que possam gerar renda. A pedagoga e instrutora do SENAR-PR Maria Luzinete Pina Zanin, de Andirá, no Norte Pioneiro do Estado, encontrou na própria história uma chance para recomeçar. Mais conhecida como Malu, a instrutora cresceu em contato com o campo e, ali, no sítio da família, adquiriu o gosto pela produção artesanal de alimentos. Em 2004, a instrutora chegou a investir em uma marca própria de produtos caseiros, como conservas de legumes e compotas de doces, sob a alcunha “Um toque da Malu”.

“Na época, eu comecei a vender os produtos para pagar o transporte para eu e meu esposo estudarmos. Eu gosto muito porque é algo de criança, remete a essa coisa de roça, de comida caseira”, conta.

Paralelamente, em 2006, Malu se tornou instrutora do SENAR-PR e começou a ministrar cursos de produção artesanal de alimentos, como derivados de soja e de milho, compotas e conservas, panificação, entre outros. Até que, por problemas de saúde, deu uma pausa nos negócios e manteve apenas o trabalho como instrutora. Na época, o sítio perdeu produtividade.

“Eu sempre falava sobre a vida na roça para as minhas alunas, sobre a importância de reinventar e recriar, buscar soluções, mas eu não estava vivendo aquilo. A pandemia veio e dificultou as coisas. Então, enxerguei como um incentivo para voltar para o sítio e recomeçar. Estou desenvolvendo algumas receitas novas e também apostando no rústico”, aponta.

A divulgação é por meio das redes sociais, com bons resultados. Os filhos, que participaram do PER, também ajudam nos negócios e na manutenção da pequena propriedade.

“Quando os cursos voltarem, eu vou ajudar muito mais, pois estou adquirindo conhecimento. Está difícil para todo mundo, mas eu estou conseguindo o equilíbrio. O bacana é que meus alunos estão acompanhando tudo”, assegura Malu.

Em Curitiba, assim como Malu, a engenheira agrônoma Ellen Piffer Buso, após 12 anos atuando como instrutora do SENAR-PR, também se viu obrigada a recomeçar. Com as dificuldades impostas pela pandemia, Ellen passou a produzir massas artesanais e criou a Pasta Mamãita. O negócio é recente, mas a ideia já vem de longa data. “Eu sempre gostei de trabalhar com massas artesanais. Na época da faculdade, para ajudar na renda, eu fazia empadões para vender”, conta.

Apesar de ser uma vontade adormecida, a engenheira agrônoma não esperava ter que colocar a mão na massa tão rápido. Segundo ela, a rotina mudou drasticamente. O período atual tem sido de adaptação com muito esforço e novos aprendizados. “Aprendi o quão importante é a empatia das pessoas. Só não aprenderá quem estiver de olhos e ouvidos fechados”, afirma Ellen.

Além do trabalho com as massas artesanais, Ellen também cuida dos filhos, que estão em casa devido à paralisação das aulas. “Não é fácil ser professora de um dos filhos, monitora do mais novo, cuidar da casa, organizar pedidos, falar com clientes, cuidar da alimentação da família. Mas a Pasta Mamãita veio para ficar e tenho certeza que me trará grandes alegrias”, conclui.

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